Boa tarde, 30 de Agosto de 2025
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Café com Palavras

Por: Cailani Carvalho

Estudante de Letras, amante de café e em busca de histórias.

A Literatura Contemporânea como ferramenta de denúncia social: o período ditatorial no Brasil refletido nas relações interpessoais da obra A Noite da Espera


Data: 22/07/2025 22:45

A noite da espera: 1 | Amazon.com.br

A literatura brasileira contemporânea aborda temas essenciais para a sociedade ao tratar, de forma crítica, questões sociais, políticas e econômicas. Segundo o filósofo Bakhtin, a literatura é um fenômeno social que dialoga com diversos discursos, como os de resistência, poder e exclusão social, levando o leitor a enxergá-la como prática social e instrumento de denúncia. Nesse contexto, a obra A Noite da Espera, de Milton Hatoum, publicada em 2017, não se ambienta no Distrito Federal por acaso, apenas para narrar a história de um grupo de jovens atores da Universidade de Brasília nas décadas de 1960 e 1970. O romance funciona como uma denúncia sutil, mas contundente, sobre como a sociedade brasileira foi moldada, ou induzida a se comportar, durante o regime militar.

Tendo como pano de fundo a capital federal, o romance denuncia, por meio de diversos elementos, a tensão vivida no país entre os anos de 1968 e 1978, período marcado pelo auge da repressão e da censura. A narrativa é marcada por lacunas e perguntas que permanecem sem resposta, como a que Martim, o protagonista, faz sobre o paradeiro de sua mãe, Lina: “Não vejo minha mãe desde que cheguei aqui. Ela mora com um pintor. Não sei onde vivem.” Outra pergunta jamais respondida é o conteúdo da carta de Lina a Rodolfo, o pai de Martim, que permanece desconhecido, contribuindo para o clima de mistério e inquietação.

As relações familiares no romance, especialmente as de Martim com seus pais, são tensas e marcadas por conflitos, refletindo o ambiente de repressão e autoritarismo vivida no país. Rodolfo, um homem conservador, personifica o conservadorismo e a rigidez da direita durante o regime militar. O sentimento de abandono vivido por Martim pode ser interpretado como uma metáfora da sensação de desamparo experimentada por muitos brasileiros em meio às disputas políticas e à repressão do estado.

O romance constrói, ao longo de toda a narrativa, um clima de tensão, dúvidas e incertezas, aspectos que se manifestam não apenas nas relações interpessoais, mas também na própria estrutura textual, como o uso recorrente de reticências, inclusive no último parágrafo, refletindo as incertezas sobre o futuro. A desigualdade social da época também é evidenciada: enquanto a elite desfrutava de certos privilégios, como aponta Martim ao dizer: “Tomei vinho tinto, o bom vinho dos diplomatas”, a população pobre vivia em condições precárias, como Lazaro e sua mãe, Dona Vidinha, empregada doméstica que mora em um casebre.

Outro traço marcante da escrita contemporânea presente em A Noite da Espera é a fragmentação narrativa e a não linearidade. Os capítulos não seguem uma ordem cronológica: o romance inicia em 1977, em Paris, e depois alterna entre o Distrito Federal, São Paulo, Goiânia e novamente Paris, entre os anos de 1968 e 1978. Essa estrutura fragmentada funciona como uma alegoria da instabilidade social e emocional do período. O embaixador Frasão, por exemplo, ora se mostra lúcido, comentando sobre literatura, ora delira e fala de sonhos, revelando a instabilidade e a vulnerabilidade da realidade brasileira naquele momento.

Além desses elementos, a repressão política é denunciada de forma simbólica, por meio de personagens e cenários. Em uma passagem significativa, a personagem Dinah risca com um “X” a frase “Brasil: ame-o ou deixe-o”, slogan emblemático da ditadura. Esse gesto revela, de forma implícita, que qualquer manifestação contrária ao regime era vista como traição e punida com o exílio ou outras formas de silenciamento.

Dessa forma, A Noite da Espera é um romance de memória e denúncia, no qual a literatura cumpre seu papel social ao expor os traumas do passado e instigar reflexões sobre a história recente do país. Como propõe Bakhtin, o leitor é convidado a vivenciar a obra como uma prática social, que promove questionamentos e amplia a consciência crítica sobre o mundo.

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